CAFÉ-COM-LEITE

Outro dia, ouvi alguém usar a expressão “café-com-leite”. Não consegui acompanhar o restante da conversa, mas o termo aguçou minha curiosidade. Passei a refletir sobre o tema, que parece simples, mas guarda suas complexidades. Afinal, as palavras insinuam significados profundos no rico universo das expressões cotidianas.
A princípio, o termo sugere uma bebida de contrastes, apreciada nos mais remotos rincões do mundo. Diz-se que os sábios habitantes das regiões leiteiras europeias tiveram a feliz ideia de misturar os dois ingredientes. Com o neocolonialismo, a combinação se espalhou e alcançou as Américas, a Ásia e a Oceania. Mais tarde, a industrialização trouxe o leite em pó e o café solúvel a locais que não produziam nenhum dos dois. Pelo preço acessível e pela simplicidade do preparo, vários povos adotaram o hábito, popularizando a bebida globalmente.
Historicamente, no Brasil, a expressão nos remete à denominada “política do café-com-leite”. Iniciada em 1898, no governo do paulista Campos Salles, a prática perdurou até 1930, na República Velha, sendo interrompida pela Era Vargas. Tratava-se de uma alusão ao acordo firmado entre as oligarquias de São Paulo e Minas Gerais, articuladas com o governo federal, para alternar a presidência da República entre políticos desses dois estados, grandes produtores, respectivamente, de café e de leite.
Além da história, o “café-com-leite” serve como metáfora na linguagem informal. Certamente muitos já ouviram o termo ser aplicado a crianças menores que desejam participar das brincadeiras dos mais velhos. Sem os requisitos necessários para competir em pé de igualdade, elas jogam sem que suas ações interfiram no placar real. Diante da fragilidade, o menor é aceito pelo grupo com ressalvas, em caráter especial. É apenas um participante “café-com-leite”.
Recordo-me bem de que, na minha infância, além de consumir a bebida no desjejum matinal, eu próprio recebia esse rótulo por ser menor e mais fraco. Quando tentava jogar futebol com os mais velhos, era um mero integrante. A realidade é que ninguém queria o “café-com-leite” no time, pois ele sempre acabava atrapalhando o ritmo do jogo.
Hoje, na terceira idade e aposentado, já não pago o transporte público, utilizo o benefício da gratuidade e estaciono em vagas reservadas. Desfruto do atendimento preferencial em filas e de assentos reservados no ônibus e no metrô. Ao vivenciar essas concessões, percebo que, de certa forma, voltei no tempo. Retornei à tenra idade e me sinto, novamente, um legítimo “café-com-leite”.

Samuel De Leonardo (Tute)
samuel.leo@hotmail.com.br e Facebook @samueldeleonardo

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