Por volta das 20 horas, tarde da noite, analisando pelo prisma de quem está próximo dos setenta, retornava de um encontro com dois grandes amigos dos bons tempos da faculdade.
A passos lentos, com o andar claudicante, alcanço a estação do metrô. Consigo embarcar no vagão lotado. Um sufoco para me equilibrar, pois uma das pernas começa a tremer. Foi quando me dei conta que o comprimido de “Prolopa” não estava surtindo efeito, haja vista que eu, imprudentemente, o ingeri com dois copos de cerveja.
Uma jovem, percebendo minha situação, cede o assento
— Tio, sente-se aqui.
Um parêntese, quem nunca foi assim chamado? Poderia ser pior, “tiozinho”.
Não me fiz de rogado, prontamente aceitei e me acomodei ao lado de uma, digamos, sem rancor, “tiazona”. Uma senhora robusta, trajando roupas iguais àquelas da simpática personagem do Sítio do Picapau Amarelo.
Sem qualquer cerimônia, a Dona Benta, a tal mulher, superando os decibéis, dirige a palavra:
— O senhor parece não estar bem — apontando para a minha perna trêmula.
Não tive tempo para qualquer reação.
— O meu finado marido, quando estava em estado de abstinência, tremia as duas pernas, além das mãos.
Ainda embaraçado com a abordagem, esbocei um sorriso amarelo.
— Para parar a tremedeira dele — ela entusiasmada com o monólogo — eu lascava um copo de cerveja na goela do falecido.
Ingenuamente, pergunto:
— E acontecia o quê?
— Parava a tremedeira do Onofre, o meu marido.
Com a intenção de terminar o diálogo, repondo:
— Mas no meu caso a questão é que a síndrome do Parkinson me causa tremores nos membros inferiores.
— Onofre também só bebia as importadas e culpava todas as marcas, uma hora era a Amstel, outra hora Heineken, por vezes a Budweiser. Mas a tal de Parkinson eu não me recordo se ele bebeu alguma vez.
Mesmo com a perna trêmula, não tive dúvidas, pedi licença e desci na primeira estação.
Samuel De Leonardo (Tute)
samuel.leo@hotmail.com.br e Facebook @samueldeleonardo
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