Depois de batalhar em diversos subempregos desde os meus 13 anos, finalmente surge o meu primeiro trabalho com carteira assinada, no cargo de “contínuo”, em agosto de 1973, na IAP S/A Indústria Agro Pecuária, cujo escritório central ficava no térreo de um edifício na Rua Miguel Isasa, 411, nas proximidades do Largo da Batata, em Pinheiros,. As fábricas estavam localizadas nos municípios de Santo André, Cubatão-SP e Cambé-PR.
Trabalhava no departamento de expedição composta com 8 garotos com idade entre os 14 e 17 anos, dos quais apenas eu e outro colega estudávamos à noite, numa época em que a evasão escolar era acentuada. A rotina diária era basicamente as mais variadas ocupações externas, como serviços bancários, tirar fotocópias, autenticar e reconhecer firmas nos diversos tabeliões na Grande São Paulo, entre outras atividades.
De todas as tarefas, tinha uma ambicionada que dava um certo “status” e que despertava o interesse de todos em fazê-la, a função de cuidar das entradas e retiradas das Guias de Importações e de Exportações na CACEX, no Banco do Brasil, na Rua Libero Badaró que, devido a importância das tramitações, invariavelmente, era usado o transporte de táxi, enquanto que as demais utilizavam o transporte coletivo, com ônibus sucateados numa cidade ainda carente de metro.
Era comum, entre os “office-boys”, e que ninguém nos ouça, vez por outra “matar” uns trocados da condução. Caso a empreitada exigisse ir de ônibus, seguir atalhos a passos largos até o destino e, quando a situação exigia táxi, fazer parte do percurso de transporte coletivo. Assim, inocentemente, cada um se virava do jeito que fosse possível para ganhar uns extras e cumprir as tarefas sem maiores problemas.
Diariamente, um serviço de malote com o veículo da empresa, saia pela manhã da fábrica em Santo André para o escritório de Pinheiros e, após o almoço. retornava transportando documentos. Por vezes, ocorriam atrasos do malote, por questões de trânsito ou de avaria mecânica na viatura.Então cabia a um de nós levar ou buscar documentos importantes na fábrica. O trajeto compreendia ir de táxi até à Estação da Luz, tomar o trem em direção à Santo André até à Estação Prefeito Saladino para finalmente chegar ao destino.
Corria um boato que abriria uma vaga no Departamento de Importação; esta vaga estava determinada ao funcionário que era o nosso chefe no Departamento de Expedição, logo, algum de nós, assumiria o cargo. A minha expectativa então era de ter uma promoção, embora tivesse concorrentes.
Numa manhã, chovia muito na Capital, trânsito caótico, os trens impedidos de circular, alguns colegas não conseguiram chegar ao escritório, eu conseguira. O gerente me chama à sua sala e me dá uma difícil missão, que mudaria a minha sorte, levar um documento até a fábrica para colher assinaturas de dois diretores, voltar o mais urgente possível, para que houvesse tempo suficiente de obter a assinatura do diretor lotado em São Paulo, reconhecer as firmas de todos no Tabelião Vampré, no bairro de Pinheiros, tirar fotocópias autenticadas e entregar com o devido carimbo e assinatura, na FIESP, que à época ficava no Palácio Mauá, no Viaduto Dona Paulina.
Consegui cumprir a missão com louvor, nunca soube que documentos tão importantes eram aqueles, no entanto, tive a primeira promoção na minha trajetória profissional. Assumira, aos 18 anos o cargo de Chefe da Expedição, cujas funções eram distribuir tarefas aos contínuos, preparar e receber os malotes com os devidos romaneios datilografados, controlar o estoque dos materiais de escritório, cuidar das máquinas copiadoras, acompanhar as manutenções das máquinas de datilografia e das calculadoras, além de ficar de olhos atentos à salinha do Telex.
Confesso, sinto saudades daquele lugar que me proporcionou uma experiência sem precedentes, um aprendizado que serviu de base para toda a minha carreira profissional. Permaneci na empresa até meados de 1976.
Samuel De Leonardo (Tute)
samuel.leo@hotmail.com.br e Facebook @samueldeleonardo
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