Tragédia anunciada no Paissandu

Moradores do prédio incendiado na terça-feira contam que pagavam uma taxa para o “coordenador” da ocupação, que alegava precisar do dinheiro para manter tudo em ordem. Quem morou lá sabe muito bem que o “coordenador” se comporta como corretor imobiliário. EXPLORA o desespero e a miséria, não tem nada a ver com movimento de moradia.

Conheci uma família (casal e sete crianças) que morava lá no primeiro andar, em um lugar considerado “bom” por ser perto da rua. Era horrendo. Escuro, sujo, perigoso. No subsolo havia banheiros repugnantes, o mau cheiro era tamanho que era difícil chegar perto. Uma masmorra. Debaixo do Minhocão as condições eram melhores, tanto é que alguns preferiam mesmo ficar na rua.

Nossos conhecidos diziam, na época, que o responsável era um tal de Anisio, “que tem um carrão e manda em várias ocupações”. Pagavam todo mês, do contrário seriam despejados sem misericórdia, e o único “benefício” era mesmo poder ficar ali.

A segurança existia basicamente para controlar a entrada. Uma moradora disse na televisão que a porta estava TRANCADA e moradores de rua ajudaram a arrombá-la pelo lado de fora. Pior é que são muitos prédios em que as pessoas correm imensos riscos, sejam “do Anisio” ou realmente ligados a movimentos sociais, e não há solução fácil, não há solução a curto prazo.

Cada família tem seu perfil, sua rotina, suas necessidades. Não há moradia que dê conta de tanta gente agora, nem serviços de Assistência Social que os comportem como deveriam. O atual Secretário de Habitação, Fernando Chucre, vem fazendo um trabalho sério, consistente, democrático, mas como disse o Bruno Covas outro dia em relação a cracolândia, “não tem varinha de condão”.

Nas últimas décadas, acreditou-se que construir centenas de unidades habitacionais em grandes glebas na periferia, ou apoiar mutirões em terrenos idem, eram boas medidas. Não eram. Faltou um plano para efetivamente produzir cidade, em vez de um teto e quatro paredes. Isso começou a mudar alguns anos atrás, mas corrigir um rumo todo errado é muito mais difícil.

Ocupar o centro, desapropriar prédios e terrenos abandonados ou mal utilizados, fazer parcerias com o setor privado realmente orientadas para a moradia popular e habitação de interesse social (não como o MCMV, que deixava o mercado tomar todas as decisões), promover o acesso a imóveis bem localizados de preço mais baixo, regularizar as áreas já consolidadas: essas são algumas das medidas necessárias.

Na gestão Haddad, foram prometidas milhares de novas unidades habitacionais, e eu disse: 1) ele não tem noção de que em quatro anos isso jamais será feito; 2) não é isso que deve ser feito. E não fez mesmo. Talvez admitindo, confrontado com a realidade, que as soluções são outras, acabou fazendo acordos formais ou informais de conivência, omissão ou complacência com ocupações, sem sequer fazer distinção entre as que tem perfil social e os empreendimentos imobiliários que tem a miséria como cliente. Quem sabe uma catástrofe como essa ajude a reorganizar essa demanda e fazer planos verdadeiros para política de moradia – viáveis, responsáveis, honestos e dignos.

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