Tem dias na vida que nem deveríamos acordar, face às peripécias que nos acomete e que nos surpreende sem ao menos ter explicações. Imagina você que ontem de manhã, ou ontem de madrugada para ser mais preciso, já por volta das três horas sou despertado pelo som do telefone.
Meio acordado e meio dormindo atendo com toda a educação:
– Alô, pronto. Quem fala?
– Olá meu caríssimo, é o Teófilo, te acordei, né?
Abro aqui um parêntese para apresentar o Teófilo, o meu amigo Téo, para quem devo milhões de favores e mais toneladas de gratidão. Um grande camarada que me ajudou em muitas jornadas da minha vida, apesar de ser um sujeito por demais atrapalhado tem um coração tão grande quanto a sua vida atarantada.
– Fala Téo. Não me acordou não. O que acontece?
– Rapaz, preciso da sua ajuda. Acabo de receber uma notícia de que a mãe de um grande cliente da minha assessoria de imprensa faleceu e está sendo velada no cemitério municipal de Rio Claro. O enterro é hoje no início da tarde. Preciso elaborar o discurso, pois o cara é capaz de cancelar todos os contratos se eu não o fizer. Acontece que eu estou em Buenos Aires e não tem como comparecer.
– Tá, tá, e daí, onde eu entro nessa?
– Por gentileza, não negue um favor ao amigo. Redija o texto e vai ao velório fazer o discurso em meu nome. Depois explico a ele.
– Téo espere um pouco que vou apanhar uma caneta e um papel para anotar os dados, afinal preciso de um “briefing” da defunta. Pronto, pode falar.
– Anote aí.
Depois de passar todas as informações as quais rabisquei mesmo dormindo, ele se despede e repete todas as recomendações, volto a dormir.
Acordo assustado, pois perdera a hora. Salto da cama afobado direto ao banho, quando então embaixo do chuveiro começo a elaborar um rascunho do discurso.
Tomo o meu café às pressas e em seguida vou ao computador para redigir o texto.
Altero a minha agenda e em seguida pego a estrada rumo à Rio Claro, que dista quase duzentos quilômetros de São Paulo.
Trânsito maluco na marginal para acessar a rodovia dos Bandeirantes. Foi fácil encontrar o local, mas o tempo estava se esgotando. Mais que depressa me apresento ao cliente do meu amigo que dada a situação estava inconsolável. Pede então que eu faça o discurso imediatamente e o mais rápido possível, pois o padre já estava pronto para encomendar o corpo.
Entendi ser coerente reduzir o tempo, então rapidamente leio o texto. Porém pelos olhares das pessoas percebo que não tinha agradado a ninguém ali presente. O padre, sábio padre, percebe que algo saíra errado e de imediato começa a reza.
Como eu tenho juízo e sem querer saber o que dera errado, saio o mais que depressa do velório. Após rodar alguns quilômetros paro num posto da estrada para comer algo e me pergunto o que teria dado errado. Nesse intervalo toca o meu celular e na linha está o Téo todo apavorado.
– Meu amigo cometi um baita engano ao lhe passar o nome da defunta. Você já apresentou o discurso?
– Sim, já estou voltando.
– Então ferrou! Eu lhe passei o nome da ave errada. É Anita Pombinha e não Anita Andorinha.
– Ferrou mesmo. – respondi. – O tempo todo no discurso a identifiquei como Dona Andorinha. E tem mais, para ‘enfeitar’ o discurso, mencionei que o céu estava feliz por mais uma filha a pousar em tão sublime lugar, afinal uma Andorinha só não faz verão.
Samuel De Leonardo (Tute)
samuel.leo@hotmail.com.br e Facebook @samueldeleonardo
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