CONVERSAS DE ELEVADOR:

— Enquanto uns sobem para cima, outros descem para baixo, o síndico do condomínio é um capacho — com a voz pastosa, porém animadinho, o Senhor Arquimedes, morador do 551, recita dentro do elevador.
O síndico emite uma advertência, pedindo para ele moderar as palavras.
No dia seguinte, de ânimo renovado, o mesmo morador: — Enquanto uns sobem para baixo, outros descem para cima, este é o nosso elevador e o síndico é um amor.
A minha vizinha, do 186, contando que estava preocupada com suas aplicações financeiras porque o governo cogita aumentar o FIOFÓ.
O Senhor Arquimedes: — Pois é, quem tem IOF atrás, tem medo.
A moradora do 214 pedindo para apertar o número dela.
O Senhor Arquimedes: — Estou em dúvida, o GG, o Super G ou o Extra G?
A minha vizinha, do 186, reclamando que a vida está uma carestia: — Onde já se viu, um dia desses, não me lembro quando, fui comprar não sei o quê, não sei aonde, paguei não sei quanto. O Senhor Arquimedes, no outro canto: — Realmente, é de machucar, tá caro tudo. Tá caro até os ovos.
A condômina do 316 comentando sobre assembleias de condomínio: — Essas reuniões são “enfradonhas”. Em silêncio, entendi o que ela quis dizer. Mas, acostumado aos comentários do senhor Arquimedes não me contive: — Sim, também são “entrefronhas’, dão um sono danado.
A vizinha do 186 maldizendo a do 165: — Aquela piranha me chamou de baleia, mas tem quem come carne de baleia. Ao contrário, ela, quando muito, mal dá um caldo e daquele bem ralinho. O Senhor Arquimedes: — Feito eu, um tablete de Knorr. Se me jogar na água quente, ainda dou bom um caldo.
A senhora do 165 retrucando a do 186: — Aquela lambisgoia me chamou de bunda seca, mas tem quem goste. Pior é ela, ninguém quer para evitar o colesterol. O Senhor Arquimedes de pronto: — Depois que me mudei para este condomínio passei a ser vegetariano.
Aquelas mesmas moradoras batendo boca no elevador: — Sua piranha. A outra: — Sua baleia. Uma delas indignada: — E os senhores, não falam nada? De novo, o Senhor Arquimedes: — Eu prefiro pirarucu!
A beata do 111 carregando um guarda-chuvas e um par de galochas: — Vou à missa, mas tenho fé que não vai chover. Desta vez o nosso amigo permaneceu em silêncio.
Todos os moradores sabiam que a cachorrinha da Dona Dionísia fazia xixi no elevador. Numa madrugada, mamado como sempre, o Senhor Arquimedes entra no elevador. Sem cerimônia, urina ali mesmo, se molhando perna abaixo. Não se faz de rogado e interfona à portaria; — Avisa o síndico que a cadelinha da Dona Dionísia fez xixi nas minhas pernas.
O elevador para no térreo e uma pessoa pergunta: — Subindo? Ele: — Muito, 140 por 90!
A fofoca corria solta no condomínio. Diziam que o zelador traçava a faxineira dentro da casa das máquinas, com a porta trancada. O Senhor Arquimedes sai com esta: — O sexo é como elevador, uma hora sobe, outra hora desce. Outras horas, sequer abre a porta.
O elevador para no subsolo, uma moradora pergunta: — Sobe? O Senhor Arquimedes: — Não mais como antes.
Uma vez mais no subsolo, alguém pergunta: — Sobe? O Senhor Arquimedes não perde a oportunidade:
— Quem dera! Sou um privilegiado por ter vivido muitas histórias hilariantes com o Senhor Arquimedes. Só o conhecia dentro no elevador, nas descidas ou subidas. Ele foi um grande companheiro de viagens. Hoje, já não desce mais. Subiu para a cobertura celestial.

Samuel De Leonardo (Tute)
samuel.leo@hotmail.com.br e Facebook @samueldeleonardo

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